Conversas à Volta de Novos Paradigmas por Gerbert Verheij

No passado sábado 7 de Outubro teve lugar nova edição das já tradicionais “Conversas,” dedicada a “novos paradigmas.” Um memorável cozido à portuguesa em panelas de barro sobre lume dividia o programa numa manhã dedicada a três fazeres bem distintos e, pela tarde, a apresentação de três projectos de criação, programação e circulação. As conversas, com organização das Oficinas do Convento, foram moderadas pelo artista portuense Miguel Januário.

 

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_MG_7962De manhã, Alice Bernardo apresentou o seu projecto “Saber Fazer,” criado em 2011 e com sede em Matosinhos. Dedica-se à investigação, valorização, divulgação e também actualização de técnicas de produção artesanal e semi-industrial próprias do país. Impressionou pela forma como junta o rigor no registo e recuperação de técnicas antigas à insistência no conhecimento prática – o saber fazer – e, por esta via, na sua transmissão através de uma larga actividade pedagógica.

 

 

 

Ferdinand Meier, engenheiro mecânico alemão com largas andanças por geografias tecnológicas mais _MG_7972alternativas (incluindo, claro está, as Oficinas do Convento), apresentou o presente e o futuro do desenho 3D e da fabricação digital. Levantou um pouco do véu sobre as matemáticas que estão por detrás das diferentes imagens digitais que já fazem parte do nosso dia-a-dia, tornou termos como “polygon mesh,” NURBS ou “Voxels” um pouco menos exóticos para o leigo e anotou desenvolvimentos recentes que prometem trazer mudanças grandes nas formas de que se reveste o nosso quotidiano.

 

 

_MG_7980Um pouco a fazer a ponte entre estes dois mundo, um de um fazer tão antigo, outro tão recente e novo, o escultor Isaque Pinheiro apresentou o seu trabalho, onde há (entre outros) uma constante interferência entre os materiais tradicionais da escultura e imagens que comentam com humor e alguma malícia este estranho mundo contemporâneo nosso. Também para ele o fazer, os materiais e as técnicas são centrais, pontos de partida desde onde ver o mundo.

No conjunto das três conversas ficou a sugestão da transversalidade do fazer, onde passado e futuro se cruzam e onde o antigo ou “tradicional” não é necessariamente antítese do presente e do porvir. É no fazer que se constroem os novos paradigmas?

 

_MG_8036A tarde trouxe, primeiro, Natxo Checa, directo da Galeria Zé dos Bois, referência no Bairro Alto de Lisboa desde 1994. Falou da necessidade do fazer com os recursos que há, da importância das amizades e da informalidade, de como se pode manter alguma distância dos circuitos de dinheiro e poder que fazem o “sistema das artes,” e da importância de manter sempre o foco na criação.

 

 

 

_MG_8046Também de Lisboa vieram Leonor Carpinteiro e Patrícia Ferreira para apresentar o projecto Condomínio, que desde 2014 ocupa temporariamente casas e espaços privados para os transformar, durante um dia, num espaço para partilhar, desfrutar e discutir um variado leque de projectos e actividades. Também aqui o encontro, partilha e informalidade foram apontados como essenciais para o ambiente de “estar em casa” que o projecto, que funciona numa base totalmente voluntária, mantém.

 

 

 

_MG_8050Finalmente, Daniel Pires apresentou o funcionamento do icónico espaço portuense Maus Hábitos, explicando como esta empresa e a associação cultural associada, Saco Azul, tem conseguido, desde 2001, equilibrar sustentabilidade económica com uma programação artística muito relevante.

 

 

 

 

No debate final falou-se do difícil equilíbrio entre sustentabilidade económica e fidelidade aos valores de partida, desafio que se coloca inevitavelmente a qualquer projecto cultural que não se rege pela lei do dinheiro. É uma questão que ficou em aberto, e que possivelmente só na tenacidade do fazer e continuar a fazer encontra uma resposta, sempre provisória. Ficou apontada a necessidade de continuar a debater esta questão aqui, no Convento de S. Francisco.

 

Reportagem de Gerbert Verheij

Reportagem incluida no jornal Folha de Montemor – Outubro 2017

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