Encontro de Telheiros do Sul por Gerbert Verheij

Encontro dos Telheiros do Sul, em Montemor-o-Novo

“No dia 4 de Novembro teve lugar, na Ermida de S. Pedro da Ribeira, um encontro dedicado aos telheiros, ou seja, unidades de produção tradicional de materiais de construção em cerâmica, como tijolos, tijoleiras e telhas, também designados por ladrilho, adobo, lambaz, etc. Com este encontro pretendia-se aproximar interessados e profissionais ligados à construção tradicional e ao património, promovendo a preservação e viabilidade de uma actividade essencial à preservação do património arquitectónico. É um primeiro fruto intercalar de um projecto de investigação do Laboratório de Terra das Oficinas do Convento, em Montemor-o-Novo, coordenado pela arquitecta Tânia Teixeira, que também moderou o encontro. No âmbito deste projecto foram inventariados onze telheiros em actividade no Alentejo e no Algarve, sem contar com o próprio Telheiro das Oficinas do Convento. Destes, seis estiveram presentes no encontro.

No debate participaram, além dos mestres dos telheiros e outros interessados, a Dra. Ana Paula Amendoeira, da Direcção Regional da Cultura do Alentejo, e a presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Hortênsia Menino. As conversas foram férteis, e além do rico repertório de saber fazer que aflorou ao longo do diálogo – desde o forno à inglesa à produção de talhas para vinho – foi surgindo o panorama dos problemas que esta actividade enfrenta. Para além do carácter residual que, também economicamente, a produção artesanal ocupa dentro do sector de construção, eram sobretudo as crescentes barreiras de ordem burocrática que foram alvo de preocupação. A legislação vigente, com o louvável intuito de proteger a natureza e o ambiente, não toma em conta as diferenças de escalas entre produção industrial e artesanal. Assim dificulta ou impossibilita mesmo aspectos inerentes à actividade dos telheiros, desde a extracção do barro aos fogos e fumos dos fornos.

Neste sentido, e apesar de toda a retórica sobre a valorização do artesanato e da produção local, as políticas adoptadas acabam, na prática, por favorecer a grande indústria, capaz de responder aos regulamentos, proibições e taxas impostas, enquanto torna o funcionamento dos telheiros cada vez mais difícil. Na investigação coordenada por Tânia Teixeira, os entraves legais foram identificados como um factor relevante no desaparecimento de um grande número de telheiros nos últimos dez anos. Na prática, os profissionais do ramo muitas vezes sentem que estão a trabalhar de forma meio clandestina, sempre com medo de uma queixa, multa ou ordem de fecho que ponha fim à actividade. E isto quando se trata não só de uma actividade residual, e por isso de pouco impacto ambiental, mas também de uma prática com valências ecológicas próprias que largamente o compensam, desde a redução do transporte pela produção local ao equilíbrio face aos recursos naturais, ou mesmo as próprias qualidades dos materiais produzidos em termos de energia incorporada, inércia térmica, reutilização e decomposição.

Um caso bem ilustrativo da contradição política em causa é o dos vinhos de talha. Considerado em risco de extinção, está actualmente a ser promovido como património cultural imaterial. No entanto, este esforço não contempla políticas efectivas para conservar a técnica – incluindo telheiros, fornos e mestres – necessária para produzir as enormes vasilhas de barro em que este vinho é estagiado, e que podem chegar a ter mais de dois metros de altura. Já pouca gente as sabe fazer, e uma vez perdida será difícil recuperar esta arte. Os saberes tradicionais são complementares, e a perda de uns afecta os outros.

Impõe-se, portanto, a valorização e protecção desta actividade, cuja perda poderá pôr em risco toda uma gama de produtos, saberes e práticas tradicionais que dela dependem, bem como as possibilidades de restauro do património com materiais adequados. Da parte dos representantes da administração presentes no encontro ouvimos sugestões prometedoras para contrariar a tendência actual. Esperamos que frutifiquem, e que, tanto a nível nacional quanto local, se vá fomentando a compreensão do valor patrimonial dos telheiros e valorizando o saber fazer das mãos do artesão.”

Gerbert Verheij

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