“Jorge Calado na Oficinas do Convento” por Gerbert Verheij

_MG_8139“No dia 21 de Outubro Jorge Calado – coleccionador e crítico de fotografia, entre muitas outras coisas – esteve nas Oficinas do Convento, trazido por José M. Rodrigues para uma conversa à volta da luz. Literalmente: o público assistiu na penumbra à volta de uma mesa iluminada, onde se amontoavam fotografias que ao sabor da conversa iam saindo do seu invólucro de plástico-bolha.

A vida de Jorge Calado, já quase octogenário, junta um currículo científico muito relevante a um persistente interesse pelas artes, com uma predilecção especial pela fotografia. Como recordou o próprio, começou a coleccionar esta arte na primavera de 1980, em Nova Iorque, quase ao acaso: foi seduzido pelas obras de Robert Mapplethorpe, soube da sua galeria e lá comprou a sua primeira fotografia. José M. Rodrigues, na sua breve apresentação, insistiu na singularidade da colecção de Calado, construída na senda destes acasos e encontros com o gosto próprio por único critério, e que no entanto contempla todas as fases da história da fotografia.

O conversante ia mostrando algumas que trouxe “lá de casa” – Walker Evans, Nicholas Nixon, Brassaï, Gérard Castello-Lopes, André Kertész, William Henry Jackson, Vivian Maier… Pelo meio do festim visual falava da fotografia, da ciência, de gostos e desgostos. O que o atrai na fotografia é que (falamos da fotografia analógica) de todas as artes é a mais próxima à vida: nasce, revelando-se na penumbra por um processo químico, envelhece, amarelando, descolorando, até desaparecer, morrendo. São coisas vivas, e por isso Calado prefere as imagens vintage (originais feitos perto do momento da revelação, que se distinguem de impressões posteriores a partir dos negativos), não por que são mais raras mas porque têm idade, rugas, descoloração, marcas de uso, história.

Já para o fim Calado deixou uma pista para a secreta ordem que rege a sua colecção, e para a relação que ele próprio forjou com a fotografia: gosta de ser seduzido pela imagem, de ser surpreendido, e foi desde este desejo que nos falou da mais democrática e liberal das artes.”

por Gerbert Verheij, publicado no jornal Folha de Montemor, Novembro 2017

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